apenas um pé

Ontem, quarta-feira, fazia sol, os termômetros chegaram a marcar trinta e cinco graus. No fim da tarde, o céu tinha algumas nuvens, e choveria no começo da noite. Em torno das cinco e meia, Arnaldo Soares, trinta e dois anos, casado, sem filhos, voltando do trabalho depois de ter comido numa lanchonete pouco aconchegante, viu, no meio do lixo jogado num beco não muito disputado pelos transeuntes, o pé esquerdo de um ser humano. Era apenas um pé, sem perna, talvez cortado na altura do tornozelo. O fluxo do tráfego era bom numa das principais avenidas do centro da cidade. Nos logradouros e nas calçadas, pouco movimento.

Algumas pessoas apressadas, dispensando a faixa de pedestres, atravessavam a via temerariamente nos vazios que os carros, velozes, deixavam. No sinal um homem amputado da perna direita, amparado por muletas, vendia algo numa caixa que ele trazia pendurada ao colo por um barbante tosco envolvido no pescoço. Arnaldo Soares, que era secretário num cartório perto dali, notou que era um pé feminino. Mau enrolado num jornal, via-se o vermelho muito vivo das unhas, detalhe que aliás foi primordial para que Arnaldo Soares tivesse sua atenção magnetizada. O diagnóstico foi feito numa fração de segundos, havia poucas pessoas em volta, mas o bastante para tolher-lhe qualquer ação, um mendigo encostado num alpendre lançava um olhar inquiridor em direção ao amontoado de sacos de lixo. Mas somente alguns passos adiante é que daria conta de que realmente vira um pé decepado no meio de um monte de entulho, pois a imagem ficara-lhe impressa na retina, tão concreta que podia tocá-la. E essa confirmação tardia fê-lo sentir um travo que percorreu toda faringe e esófago, até chegar ao estômago, que se comprimiu subitamente. Era como se ele tivesse mastigado e engolido aquele pé. Arnaldo Soares sobressaltou-se: tinha o pé de uma pessoa dentro da barriga. Como se desfazer dele?

Percorridos alguns metros além da descoberta, encurtou o passo, pensou em chamar a polícia, tinha um posto ali perto. Eles resolveriam o problema, tratariam de remover aquele pé, identificariam o dono, caçariam e prenderiam o assassino e a vida de Arnaldo Soares seguiria seu caminho. Mas logo desistiu da ideia, pois sabia que o interrogariam, obrigá-lo-iam a prestar depoimento, o diabo a quatro. Morava longe, só queria chegar em casa a tempo do jantar. Por que isso teve que acontecer logo com ele? Não arruinaria seu dia por causa disso. Por que se preocupar? O problema não é meu, dizia para si, e apertava o passo. Daqui a pouco recolheriam o lixo e o pé desapareceria, apodreceria em algum aterro sanitário distante da cidade, e, como se nunca tivesse existido, juntar-se-ia à massa orgânica rejeitada diariamente pela população. Seria como a onda que leva de volta ao seio do mar o dedo solitário que alguém vira na praia e, conformada, continuara sua caminhada na areia. Arnaldo Soares atravessa o sinal vermelho como se carregasse um segredo terrível consigo. Suas pernas tremiam e as suas mãos suavam como se tivesse acabado de cometer um delito. Levaria um crime para casa? Alguém matara friamente uma mulher, jovem provavelmente, e a fizera em pedaços, caprichosamente guardando as partes do seu corpo em vários cantos da cidade para serem levadas pelo serviço municipal de coleta de lixo. Quis o acaso que Arnaldo Soares achasse uma das partes, poderia ter encontrado qualquer outra. E não é impossível que, procurando em alguma lata de lixo, encontrasse o pé direito, parte do braço, talvez a cabeça. Embora vivendo numa região violenta da cidade, jamais vira uma pessoa morta, muito menos o pedaço de uma pessoa morta. E a única coisa que conseguia sentir era nojo, como o nojo que se sente da carcaça de um cavalo apodrecendo na beira de uma estrada. Mas nessa hipótese, pelo menos é o que deve acontecer com a maioria das pessoas, o nojo é acompanhado de um sentimento de piedade. Como sentir piedade de um pé abandonado no meio do lixo? Seria o caso de acender-lhe uma vela, de rezar-lhe, como algumas pessoas mais apegadas a religiosidade o fariam. Mas a questão agora não era essa. Arnaldo Soares tinha as mãos manchadas de sangue, matara uma pessoa. E embora não se culpasse, ficava mais consciente do seu crime quando flagrava os olhares dos passantes em sua direção, o próprio mendigo do beco lançara-lhe um olhar frio de reprovação. Será que eles sabem? Assassino, assassino! O ponto de ônibus estava perto agora, estaria a salvo em casa. Eram seis horas quando seu ônibus chegou, estava calmo agora, refletira bem sobre o que acontecera e decidira que uma ligação anônima seria a melhor saída. A tarde escurecia.

O cobrador parecia olhá-lo com desconfiança. Estava sereno, mas escondia algo. Conseguiu sentar-se na janela sem ser notado e assustou-se de repente. Percebeu que esquecera alguma coisa. Mas trouxe consigo da repartição somente uma pasta, que se manteve grudada a sua mão durante todo o tempo. Não era possível, tinha certeza: esquecera algo. Revirou sua pasta, seus papéis, vasculhou os bolsos da calça, sua carteira estava intacta, com todos os documentos. Começou a impacientar-se. Alguns passageiros começaram a notar seu comportamento, uma senhora chegou a perguntar-lhe se passava mal. Se descobrissem seu segredo, o apontariam, o entregariam e o condenariam, sem perdão. Teve outro sobressalto, mas dessa vez seu coração disparou, sua respiração ficou pesada, sentiu uma dor lancinante, como se tivessem cortado uma parte do seu corpo. Não podia voltar mais para casa. Deus, precisavam parar o ônibus, esquecera algo. Parem o ônibus! Ainda dava tempo de voltar e encontrá-lo. Já era noite e começava a chover.

verão, 2009